Gestão de glosas com IA: o case do Hospital Moinhos de Vento

A maioria das equipes de faturamento hospitalar vive presa a um ciclo conhecido. A glosa chega, o analista corrige, o erro se repete no mês seguinte. O olhar fica sempre no problema já consumado, nunca na causa que o gera. Foi exatamente esse cenário que motivou o Hospital Moinhos de Vento a buscar uma forma diferente de atuar sobre suas perdas.

Antes de apresentar os resultados, vale situar o problema no contexto do setor. Segundo o Observatório ANAHP 2026, a glosa inicial gerencial dos hospitais privados de alta complexidade chega a 15,93%, enquanto o índice de recebimento gerencial fica em 85,80%. Esses números mostram que a recuperação de receita não depende apenas de recursar glosas, depende de impedir que elas voltem a acontecer.

Um problema real como ponto de partida

A virada no Moinhos de Vento começou com uma constatação simples. A instituição fazia treinamentos e revisava fluxos, mas não contava com uma inteligência que apoiasse o processo de forma preventiva. Como resume Aline Munhoz, responsável pelo acompanhamento do projeto na instituição, o foco sempre foi buscar soluções que permitissem trabalhar antes do erro, e não depois dele.

O contato com o ZG Conformidade aconteceu no CONAHP de 2024. Um folder despertou o interesse da equipe, e a visita técnica seguinte esclareceu a proposta. “É um serviço que vai ajudar vocês a olhar diferente para esse processo da glosa”, explicou o representante da ZG. A resposta foi direta: havia interesse, e o trabalho começou.

Aline faz questão de marcar um ponto que atravessa toda a experiência. “Quando você tem uma inteligência artificial que não está olhando para um problema, você está falando de uma inovação, mas essa inovação não vai gerar uma transformação.” A tecnologia, no caso do Moinhos, entrou para resolver uma dor concreta, não para preencher uma pauta de modernização.

O ano que mudou a rota

O período que acelerou a busca por soluções foi 2024. A instituição enfrentou uma elevação muito rápida de glosas, o ano mais desafiador nesse aspecto. Em 2025, o cenário já apresentava alguma melhora. Em 2026, a equipe trabalha com mais tranquilidade em relação aos valores mensais de glosa.

O hospital fechou 2025 com uma glosa final de 1,05%, um patamar que dialoga diretamente com o benchmark setorial. O Observatório ANAHP 2026 aponta uma glosa aceita contábil de 1,72% para o conjunto dos hospitais associados, o que coloca o resultado do Moinhos abaixo da média do setor.

Como funciona o ZG Conformidade

O ZG Conformidade é um serviço de análise e apoio à correção dos processos que geram impactos negativos no ciclo de receita. A empresa reúne um time de especialistas jurídicos e profissionais com experiência em glosas e recursos de glosas, responsáveis por identificar as causas que precisam de ajuste. O objetivo é atuar numa correção mais ágil, com prevenção ativa e melhoria do fluxo de receita.

O ganho, segundo Aline, não está apenas em recuperar valor. Está em reduzir a repetição de perdas. E outros benefícios apareceram no caminho.

O primeiro foi a integração das áreas. Ao tratar a iniciativa como projeto, as pessoas foram sensibilizadas sobre a importância do que seria feito, o que facilitou muito a comunicação interna. O segundo foi a recuperação de valores de tabelas desatualizados. O hospital cobrava menos do que deveria, e a operadora não sinalizava a diferença. Aline chama isso de perda invisível, aquela que ninguém enxerga e por isso ninguém corrige.

A lógica do tempo no faturamento

Para entender o valor da correção rápida, é preciso acompanhar a linha do tempo de uma conta. Aline propõe o raciocínio.

Um paciente é atendido, a conta é fechada e faturada. Suponha um prazo médio de faturamento de 20 dias. Depois vem o prazo de recebimento previsto em contrato, digamos 30 dias. Já são 50 dias. Quando chega o demonstrativo de pagamento com a glosa, o hospital ainda tem 90 dias para recursar.

O ideal seria receber a glosa e recursar imediatamente. Essa não é a realidade das equipes enxutas. O Moinhos conta com cinco analistas de glosas, e o recurso costuma sair em torno de 60 dias, ainda dentro do prazo, mas sob pressão de turnover, atestados e férias.

O problema real aparece na repetição. Um erro de código descoberto 60 dias depois pode continuar gerando glosa por três ou quatro meses, porque todos os pacientes atendidos nesse intervalo entram no mesmo padrão de erro. O analista precisa olhar item repetido por vários meses, mesmo quando já aceitou a glosa. É tempo de equipe consumido sem gerar valor.

O ZG Conformidade reduziu esse prazo para 15 dias. Com a informação do erro em mãos, a correção é feita no comitê seguinte e, a partir daí, aquele erro deixa de existir. O resultado prático já aparece: alguns itens que geraram glosa ao longo de 2025 estão com glosa zero em 2026.

A estrutura de governança

O funcionamento se apoia em comitês quinzenais que analisam item a item. Cada reunião reúne o time de auditoria, o time comercial, a equipe de parametrizações e preços e os especialistas da ZG. As correções chegam já realizadas no sistema, prontas para validação.

A base do processo é a atualização das tabelas de referência pela ZG. O hospital envia os contratos das operadoras, os aditivos e as regras contratuais. A ZG já mantém em plataforma os arquivos XML da instituição, fruto de uma parceria que existe desde 2009 na etapa de recurso. A IA cruza os contratos com os arquivos transmitidos às operadoras, e um especialista da ZG garante a qualidade dos registros antes que os itens cheguem ao comitê.

O contrato inicial tem duração de um ano e cobre seis operadoras, escolhidas por concentrarem o maior volume de glosas e a maior complexidade. A ideia inicial de trabalhar cada operadora em torno de três meses precisou de ajuste de calendário conforme o projeto avançou.

Nos comitês, cada item recebe uma classificação. Pode ser um caso que exige chamar a operadora para revisar o texto do contrato, um item negociado mas não parametrizado no sistema, ou algo parametrizado pelo hospital que a operadora ainda não refletiu porque o contrato não foi assinado. “Aqui a gente descobriu um universo de causas que estavam gerando essas glosas”, conta Aline.

Os primeiros resultados

Aline é transparente sobre o estágio do projeto. Trata-se de uma iniciativa nova, e resultados muito impactantes levam tempo. Ainda assim, os primeiros números são concretos.

A primeira mensuração cobriu pagamentos até maio de uma única operadora, hoje em fase avançada. Em um item de consulta hospitalar de emergência, o hospital cobrava um valor abaixo do contratado e recuperou R$ 49,99 a cada cobrança. Foram 517 ocorrências mensuradas até o pagamento de maio, gerando cerca de R$ 25 mil em caixa, apenas em divergências de tabela. A segunda operadora também avançou, a terceira iniciou o comitê e a quarta já recebeu materiais.

O reconhecimento ao time acompanha os números. A supervisão da operação e as equipes de auditoria, comercial e parametrização assumiram o projeto sem que houvesse um profissional designado exclusivamente para os comitês. Cada analista segue com a demanda de recursos e ainda avalia os itens de cada reunião. “As pessoas estão incansáveis”, resume Aline.

A POC da ZGIA: recurso de glosa automatizado

Com a ZG já conhecendo a glosa e os contratos do hospital, surgiu a pergunta natural: seria possível automatizar o recurso? A resposta foi uma prova de conceito iniciada oficialmente em abril, a ZGIA, análise automática de glosas com inteligência artificial.

A ZGIA é um processo automatizado integrado ao sistema da ZG, com o objetivo de otimizar a velocidade e garantir a conformidade do recurso. A IA localiza o texto no contrato, monta o recurso com as regras já validadas e libera o envio. O analista deixa de procurar o contrato e redigir cada texto manualmente. A IA sugere e apresenta a memória de cálculo, mas a validação e a decisão seguem com o auditor humano.

O treinamento foi por etapas. Começou em maio com dois motivos de glosa, preço e tabela, aplicados a materiais e medicamentos. Em junho, diante do sucesso inicial, a análise se ampliou para diárias, taxas e pacotes. Em julho veio a primeira validação de resultados.

Os números da POC mostram a curva de aprendizado. Em materiais, a IA reconheceu 83,2% dos itens em que poderia atuar e trouxe o recurso em quase 60% dos casos. Em medicamentos, olhou para 60,5% da amostra e alcançou quase 80% de assertividade no envio. No conjunto, o projeto evoluiu de uma cobertura de 42% para 92,7% de alcance sobre as glosas no período.

O próximo passo já está desenhado. A equipe quer aplicar a IA à leitura de guias, cruzando cada guia com o XML antes do envio ao faturamento, para minimizar glosas por codificação, senha, autorização e carteirinha. O objetivo é evitar contas travadas no faturamento e reduzir a glosa gerada por esses motivos.

O que a experiência ensina

A resistência que a equipe temia não apareceu. Os analistas que validam a IA pedem a expansão para todos os motivos de glosa, porque o trabalho ficou mais simples. A IA, como reforça Aline, ainda está aprendendo, não está pronta, e o time dedicado é parte essencial dessa maturação.

O aprendizado central cabe em poucas frases. A IA precisa resolver problemas reais, ampliando eficiência, velocidade e escala. A decisão segue humana, sustentada por governança. E a inovação se constrói de forma contínua, com pessoas, dados e resultados atuando juntos.

Aline sintetiza a ordem que orienta o projeto: o método vem antes da tecnologia, a governança antes da escala e o resultado antes da automação. O processo do Moinhos parte de uma análise reativa rumo a uma inteligência preditiva, o que significa gastar menos tempo corrigindo perdas e mais tempo gerando valor para o cuidado, para os processos e para a sustentabilidade do ciclo de receita.

Perguntas frequentes

A inteligência artificial substitui os auditores de glosa? Não. Esse foi o primeiro receio da equipe, e a experiência do Moinhos mostra o contrário. A IA sugere o recurso e apresenta a memória de cálculo, mas a validação e a tomada de decisão continuam sendo do auditor humano. A tecnologia amplia a capacidade da equipe, não a dispensa.

Quanto tempo leva para aparecerem resultados nesse tipo de projeto? Resultados muito impactantes levam tempo, porque o trabalho atua sobre causas e ciclos de faturamento que se estendem por meses. Ainda assim, o Moinhos já mensurou recuperação de caixa a partir da primeira operadora e observou itens que saíram de glosa recorrente em 2025 para glosa zero em 2026.

Por que a correção rápida importa tanto na gestão de glosas? Porque um único erro se repete em todas as contas atendidas até que seja corrigido. Um código errado descoberto tarde pode gerar glosa por três ou quatro meses. Reduzir o prazo de correção de meses para 15 dias interrompe essa repetição e libera tempo da equipe.

Como garantir governança quando se usa IA no ciclo de receita? Com estrutura de comitês, validação por especialistas e decisão humana em cada etapa. No Moinhos, comitês quinzenais reúnem auditoria, comercial, parametrização e os especialistas da ZG, e todo recurso sugerido pela IA passa por conferência antes do envio à operadora.

Se a sua instituição também convive com glosas recorrentes e perdas invisíveis no ciclo de receita, vale conhecer como o ZG Conformidade e a ZGIA atuam sobre as causas, e não apenas sobre os sintomas.

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