Acreditação ONA: O que é, como obter e por que impacta diretamente o faturamento

A acreditação hospitalar é frequentemente apresentada como questão de qualidade e reputação. E é. Mas há um impacto financeiro direto e mensurável da acreditação que poucos gestores associam explicitamente ao ciclo de receita: o Fator de Qualidade da ANS.

O Fator de Qualidade determina o percentual de reajuste que um hospital recebe sobre o IPCA nos contratos com operadoras de saúde:

  • Hospitais com acreditação nível A recebem 105% do IPCA
  • Hospitais com acreditação nível B recebem 100% do IPCA
  • Hospitais sem acreditação ou abaixo dos critérios recebem 85% do IPCA

Isso significa que um hospital sem acreditação recebe 15% a menos de reajuste do que o IPCA base, enquanto um hospital com acreditação máxima recebe 5% acima. Ao longo de vários anos e sobre um faturamento expressivo, essa diferença acumula impacto significativo na receita.

A acreditação ONA é a principal via para obter o Fator de Qualidade máximo no Brasil.

O que é a Acreditação ONA

A Organização Nacional de Acreditação (ONA) é uma entidade privada sem fins lucrativos fundada em 1999 que atesta a qualidade de serviços médico-hospitalares no Brasil, tanto públicos quanto privados. Ela usa como base os padrões do Sistema Brasileiro de Acreditação e do Manual Brasileiro de Acreditação.

A ONA não tem função regulatória ou de fiscalização. As instituições de saúde são livres para adotar ou não seus critérios. Mas o impacto financeiro via Fator de Qualidade da ANS torna a decisão de buscar a acreditação muito menos opcional do que parece.

A ONA avalia três pilares nas instituições de saúde:

  • Aprimoramento da gestão
  • Maximização da segurança
  • Melhoria na qualidade da assistência

A filosofia central é a melhoria contínua: os níveis de acreditação são crescentes, têm prazo de validade e exigem renovação, o que cria um ciclo permanente de evolução da gestão.

Os três níveis de acreditação ONA

Nível 1: Acreditado: Contempla os critérios mínimos de segurança garantidos ao paciente, incluindo aspectos de infraestrutura predial e assistenciais por parte do corpo clínico. Validade de 2 anos.

Nível 2: Acreditado Pleno: Engloba os requisitos do nível 1 mais o princípio da gestão eficiente, medido pela integração entre processos e comunicação assertiva entre áreas. Validade de 2 anos.

Nível 3: Acreditado com Excelência: O nível máximo, que atesta excelência em gestão. A instituição que chega ao nível 3 demonstra maturidade de gestão, consistência de processos e foco documentado em melhoria contínua. Validade de 3 anos.

O que os hospitais nível 3 têm em comum? Invariavelmente, eles têm sistemas informatizados como prontuário eletrônico integrado ao faturamento e uma gestão de glosas bem estruturada. Esses não são apenas requisitos para a acreditação. São os mesmos elementos que impactam diretamente o ciclo de receita.

Acreditação x Certificação: qual a diferença?

São instrumentos diferentes com escopos distintos, e não são excludentes.

Acreditação ONA: Avalia a organização como um todo por meio das ROPs (Práticas Organizacionais Exigidas). Se apenas um departamento não cumprir os pré-requisitos, a acreditação não é concedida. É uma avaliação holística que exige alinhamento de toda a equipe hospitalar.

Certificação (ISO, por exemplo): Tem viés processual e pode ser aplicada por departamento. O hospital escolhe quais áreas serão avaliadas. A ISO 9001 é voltada a processos e funciona bem para departamentos administrativos.

A recomendação prática é não tentar obter os dois instrumentos simultaneamente. Os pré-requisitos são diferentes e o processo é exigente. Foque em um primeiro e avance para o próximo após a consolidação.

Outras acreditações internacionais:

  • JCI (The Joint Commission), referência nos EUA
  • Accreditation Canada
  • NABH (National Accreditation Board for Hospitals)
  • NIAHO (Acreditação Nacional Integrada para Organizações de Saúde)
  • HIMSS (Healthcare Information and Management Systems Society)

A ONA se destaca no Brasil por ser calibrada à realidade do sistema de saúde brasileiro, que tem dinâmicas muito diferentes dos sistemas norte-americano ou europeu.

Como obter a acreditação ONA

O processo começa pela escolha de uma das instituições acreditadoras vinculadas à ONA:

  1. DNV GL Business Assurance Avaliações e Certificações Brasil
  2. Fundação Carlos Alberto Vanzolini (FCAV)
  3. Instituto Brasileiro para Excelência em Saúde (Ibes)
  4. Instituto de Acreditação Hospitalar e Certificação em Saúde (IAHCS)
  5. Instituto de Planejamento e Pesquisa para Acreditação em Serviços de Saúde (IPASS)
  6. Instituto Qualisa de Gestão (IQG)

Escolhida a instituição acreditadora, o hospital tem duas opções para iniciar o processo:

Avaliação direta: a entidade avalia a instituição com base nos critérios do Manual Brasileiro de Acreditação e emite o resultado.

Diagnóstico organizacional: a entidade avalia toda a instituição e aponta erros e acertos antes da avaliação formal. Permite identificar lacunas e corrigi-las antes de solicitar a acreditação. É a abordagem mais recomendada para quem ainda não tem clareza sobre o estágio atual da instituição.

Não há prazo mínimo estipulado, mas o processo não é rápido. Exige planejamento estratégico, tático, operacional e financeiro. A mudança cultural necessária para alinhar toda a equipe com os critérios da ONA leva tempo

O roteiro prático para buscar a acreditação

Passo 1: Diagnóstico interno com dados reais: Antes de qualquer outra coisa, mapeie onde a instituição está hoje. Use indicadores hospitalares para identificar as principais falhas de processo. Alguns hospitais contratam consultores clínicos externos ou fortalecem o time de auditoria para esse diagnóstico.

Passo 2: Identifique as lacunas em relação ao Manual ONA: Com o diagnóstico em mãos, compare o estado atual com os critérios do nível de acreditação que está sendo buscado. Cada lacuna identificada vira uma ação no plano de melhoria.

Passo 3: Engaje a equipe com argumentos concretos: A acreditação exige que toda a equipe hospitalar esteja alinhada. Médicos, enfermeiros, equipe administrativa e financeira precisam entender o propósito. O argumento mais eficaz não é abstrato. Mostre o impacto financeiro do Fator de Qualidade: o que representa, em reais, a diferença entre receber 85% e 105% do IPCA sobre o faturamento anual da instituição?

Passo 4: Implemente as melhorias por prioridade: Comece pelas lacunas com maior impacto nos critérios de avaliação. Processos de segurança do paciente, documentação clínica, gestão de glosas e integração de sistemas são frequentemente os pontos mais críticos para hospitais que buscam o nível 2 ou 3.

Passo 5: Monitore com indicadores: As visitas de avaliação dos acreditadores são periódicas e in loco. Um hospital que monitora seus indicadores continuamente, e não apenas antes da visita, está em posição muito mais sólida do que um que monta o relatório às vésperas da avaliação.

Passo 6: Solicite a avaliação formal: Com as lacunas corrigidas e os indicadores demonstrando evolução, solicite a avaliação à instituição acreditadora escolhida.

O impacto da acreditação no faturamento hospitalar

A conexão entre acreditação e faturamento vai além do Fator de Qualidade da ANS. Há um ciclo de reforço positivo que conecta os dois:

Hospitais que buscam a acreditação ONA são obrigados a estruturar a gestão de processos de forma integrada. Isso inclui, invariavelmente, melhorar a documentação clínica, integrar sistemas de prontuário com faturamento e estruturar a gestão de glosas de forma sistemática.

Esses mesmos elementos são os que mais impactam o ciclo de receita. Documentação clínica completa reduz glosas. Integração de sistemas elimina erros de transcrição. Gestão de glosas estruturada recupera receita e previne perdas recorrentes.

O Observatório ANAHP 2026 mostra que os hospitais com melhores indicadores de faturamento, taxa de glosa abaixo de 1,72% e índice de recebimento acima de 85,80%, são justamente os que têm processos mais maduros de gestão. A acreditação ONA é um caminho estruturado para chegar a esse nível de maturidade.

Checklist: sua instituição está pronta para buscar a acreditação ONA?

Condições básicas:

  • Os processos críticos de atendimento estão documentados?
  • A equipe clínica e administrativa tem rotinas de auditoria interna?
  • O prontuário eletrônico está implementado e em uso consistente?

Gestão de processos:

  • A comunicação entre áreas clínicas e administrativas tem fluxos definidos?
  • Os indicadores de desempenho são monitorados regularmente?
  • Há processo sistemático de gestão de glosas com análise de causa raiz?

Planejamento para a acreditação:

  • O diagnóstico organizacional foi feito para identificar as lacunas em relação ao Manual ONA?
  • A equipe está alinhada com o propósito e as exigências do processo de acreditação?
  • O nível de acreditação a ser buscado está definido com critério realista?

Perguntas frequentes sobre Acreditação ONA

Quanto tempo leva o processo de acreditação? Não há prazo estipulado. Depende do ponto de partida da instituição e do nível buscado. Hospitais que já têm processos bem documentados e indicadores monitorados podem chegar ao nível 1 em menos tempo do que hospitais que estão começando do zero. O processo é contínuo, com validade de 2 a 3 anos dependendo do nível.

A acreditação é obrigatória? Não. A ONA não tem função regulatória. Mas o impacto financeiro via Fator de Qualidade da ANS e a vantagem competitiva tornam a decisão de não buscar a acreditação uma escolha com custo financeiro explícito.

O Fator de Qualidade da ANS se aplica a todos os contratos? O Fator de Qualidade é aplicado nos contratos com operadoras de saúde suplementar regulados pela ANS. Verifique nos seus contratos vigentes se a cláusula de Fator de Qualidade está prevista e qual nível de acreditação está reconhecido em cada contrato.

Qual é a diferença prática entre os níveis 2 e 3? O nível 2 adiciona gestão eficiente ao nível básico de segurança. O nível 3 exige maturidade e consistência de gestão ao longo do tempo, não apenas a implementação dos processos certos. Para o Fator de Qualidade da ANS, o que determina o percentual é o nível (A, B ou C) definido nos contratos, não necessariamente o nível ONA diretamente.

Resumo rápido

A acreditação ONA atesta qualidade em três pilares: segurança, gestão e assistência. Para o faturamento hospitalar, o impacto mais direto é o Fator de Qualidade da ANS, que permite reajuste de até 105% do IPCA para hospitais acreditados nível A versus 85% para hospitais sem acreditação.

O processo exige planejamento, engajamento de equipe e melhoria de processos que, por si só, já impactam positivamente o ciclo de receita: documentação clínica, integração de sistemas e gestão de glosas são critérios da ONA e são também os fatores que mais influenciam a taxa de glosa e o índice de recebimento.

Índice

Gostou do conteúdo? Compartilhe clicando nos ícones abaixo.
Veja mais

Deixe um comentário

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *