Modelos de remuneração na Gestão Hospitalar: Do fee-for-service ao pagamento por valor

A forma como os hospitais são pagos pelas operadoras de saúde está mudando. O modelo tradicional, pagar por quantidade de procedimentos, está sendo questionado em todo o mundo. E no Brasil, essa discussão chegou com força.

Entender os modelos de remuneração disponíveis é essencial para gestores hospitalares que querem negociar contratos melhores, reduzir glosas e melhorar os resultados financeiros da instituição.

O modelo mais usado: fee-for-service

O fee-for-service surgiu nos Estados Unidos na década de 1930 e até hoje é o modelo dominante no mercado brasileiro de saúde suplementar. A lógica é simples: o prestador recebe por tudo que produz.

Pense assim: é como ir a um restaurante. Você pede, consome e no final o garçom traz a comanda com tudo que foi consumido, alimentação, bebidas, taxas de serviço. Você confere, concorda e paga.

No fee-for-service funciona da mesma forma. Operadora e hospital definem previamente as tabelas de preço para procedimentos, materiais, medicamentos e taxas. Tudo que é realizado no atendimento ao paciente é registrado, cobrado e pago, desde que a operadora concorde com o que foi cobrado.

E aí está o problema.

O principal desafio do fee-for-service

O modelo remunera quantidade, não qualidade. Quanto mais procedimentos realizados, maior a receita do hospital. Isso cria um incentivo que nem sempre está alinhado com o melhor desfecho para o paciente.

Do lado da operadora, a conta cresce sem um controle claro de necessidade clínica. A resposta? Glosas. A operadora passa a contestar procedimentos que julgar desnecessários, e o hospital entra em um ciclo de cobranças, contestações e retrabalho.

Por exemplo: um hospital que realiza exames além do necessário pode ter vários itens glosados pela operadora. O time de faturamento abre recurso, a operadora analisa, parte é recuperada, parte não. Esse ciclo consome tempo, dinheiro e energia de ambos os lados.

Além disso, o modelo não estimula a prevenção. Um paciente saudável que não usa o plano não gera receita para o hospital, mas gera economia para a operadora. Esse desalinhamento de interesses é o coração do problema. 

Os novos modelos: pagamento baseado em valor

IndeOs modelos alternativos agrupados sob o nome value-based payment (pagamento baseado em valor) têm um princípio comum: remunerar pelo resultado, não pelo volume.

A ideia é que o hospital receba mais quando o paciente tem um desfecho melhor e assuma parte do risco quando os resultados ficam abaixo do esperado. Isso alinha os interesses de operadora, hospital e paciente.

Existem três modelos principais.

1. Pagamento por performance (pay-for-performance)

Nesse modelo, hospital e profissionais passam por avaliações periódicas de qualidade. Os critérios incluem resultados clínicos, uso de recursos, tempo de internação, taxas de reinternação e satisfação do paciente.

Com base nessa avaliação, o hospital pode receber bônus por resultados acima da meta, ou ter redução no pagamento por resultados abaixo.

Na prática: uma operadora define que hospitais com taxa de infecção hospitalar abaixo de X% recebem um adicional de 5% sobre o contrato. O hospital que investe em protocolos de higiene e controle de infecção é diretamente recompensado.

2. Pagamento por episódio clínico (bundled payments)

Nesse modelo, o hospital recebe um valor fixo pré-estabelecido para tratar um quadro clínico específico, independentemente de quantos procedimentos forem necessários.

Por exemplo: a operadora paga R$ 15.000 para um episódio de cirurgia de joelho, incluindo internação, cirurgia, anestesia, fisioterapia e acompanhamento pós-operatório. Se o hospital conseguir fazer tudo com R$ 12.000, fica com a diferença. Se gastar R$ 18.000, absorve o prejuízo.

Isso estimula eficiência, coordenação entre especialistas e uso racional de recursos. Por outro lado, exige maturidade de gestão e dados clínicos bem estruturados.

3. Pagamento per capita (capitation)

Nesse modelo, o hospital recebe um valor fixo mensal por cada beneficiário cadastrado, independentemente de quantas vezes esse beneficiário usa o serviço.

Se o beneficiário não precisar de atendimento no mês, o hospital recebe assim mesmo. Se precisar de vários atendimentos, o hospital não recebe a mais.

Isso inverte completamente o incentivo: o hospital passa a ter interesse direto em manter os pacientes saudáveis, porque paciente que não adoece não gera custo.

Na prática: esse modelo exige dados robustos sobre a população atendida faixa etária, doenças crônicas, distribuição geográfica, histórico de uso. Sem esses dados, o hospital não consegue precificar o risco corretamente e pode sair no prejuízo.

Comparativo dos modelos

ModeloBase do pagamentoQuem assume o riscoIncentivo principal
Fee-for-serviceVolume de procedimentosOperadoraProduzir mais
Pay-for-performanceQualidade e resultadosCompartilhadoMelhorar desfechos
Bundled paymentsEpisódio clínico fixoHospitalSer eficiente
CapitationValor por beneficiário/mêsHospitalManter paciente saudável

Como a tecnologia entra nessa equação?

Independentemente do modelo de remuneração, a tecnologia é o que torna a gestão eficiente. Veja como cada ferramenta impacta os resultados:

O prontuário eletrônico elimina a transcrição manual de informações do papel para o sistema, uma das principais fontes de erro no faturamento. Além disso, permite que o faturista acesse os dados do atendimento em tempo real, acelerando o fechamento das contas.

Por exemplo: um hospital que migra do prontuário físico para o eletrônico reduz o tempo de fechamento mensal do faturamento e diminui inconsistências nas guias enviadas às operadoras.

Consultas online (telemedicina) Mais popular após 2020, a telemedicina reduz custos operacionais, melhora o acesso do paciente e diminui o volume de atendimentos presenciais desnecessários. Nos modelos baseados em valor, isso é especialmente vantajoso, menos atendimento desnecessário significa menos custo e melhor desfecho.

Gestão de glosas com dados Glosas não são só prejuízo, são um sinal de que algum processo interno precisa ser corrigido. Um sistema que identifica rapidamente o motivo de cada glosa permite que o hospital aja na causa raiz, e não apenas no recurso pontual.

Por exemplo: se um hospital percebe que 30% das glosas de determinada operadora são por código TUSS incorreto em cirurgias ortopédicas, o problema está no processo de codificação, e pode ser corrigido de forma sistêmica.

Business Intelligence (BI) e dados clínicos Nos modelos de value-based payment, especialmente no capitation, dados são o ativo mais importante. Sem um BI estruturado, o hospital não consegue monitorar indicadores de qualidade, prever riscos populacionais ou demonstrar resultados para as operadoras.

Qual modelo é melhor para o meu hospital?

Não existe resposta única. Depende do porte da instituição, do perfil dos contratos vigentes e da maturidade de gestão.

Mas aqui entra um ponto importante: a tendência do mercado é clara. As operadoras estão cada vez mais interessadas em modelos baseados em valor, e hospitais que não se prepararem para essa transição vão negociar em desvantagem nos próximos ciclos contratuais.

O caminho mais seguro é começar a construir a base agora: dados clínicos organizados, indicadores de qualidade monitorados e tecnologia integrada ao faturamento.

Checklist: sua gestão está preparada para os novos modelos?

  • O hospital monitora indicadores de qualidade (taxa de infecção, reinternação, satisfação)?
  • Os dados clínicos estão estruturados e acessíveis para análise?
  • O faturamento usa prontuário eletrônico integrado ao sistema de cobrança?
  • Existe um processo de análise de causa raiz para glosas recorrentes?
  • A equipe conhece os diferentes modelos de remuneração dos contratos vigentes?
  • A renovação contratual inclui avaliação dos modelos de remuneração praticados?
  • O hospital tem dados sobre o perfil da população atendida (faixa etária, doenças crônicas)?

Perguntas frequentes

O fee-for-service vai acabar no Brasil? Não no curto prazo. Ele ainda é dominante, especialmente em hospitais menores e em regiões com menos pressão das operadoras por eficiência. Mas a tendência de médio e longo prazo é clara: modelos baseados em valor estão avançando.

Pequenas clínicas também precisam se preocupar com isso? Sim. Os modelos de value-based payment estão chegando também para clínicas e consultórios, especialmente nas especialidades com maior volume de procedimentos eletivos.

Como saber se o contrato atual é justo? Compare os percentuais praticados com as tabelas de referência (Simpro, Brasíndice, CBHPM). Avalie o histórico de glosas por operadora. E use a renovação contratual como oportunidade de renegociação.

O hospital pode propor um modelo diferente para a operadora? Sim. Especialmente em contratos de maior volume, o hospital tem espaço para propor modelos híbridos, por exemplo, fee-for-service com bônus por performance. A chave é ter dados que sustentem a proposta.

Resumo rápido

O fee-for-service ainda é o modelo dominante, mas remunera volume, não qualidade. Os modelos baseados em valor (pay-for-performance, bundled payments e capitation) estão ganhando espaço e alinham melhor os interesses de hospital, operadora e paciente.

A tecnologia é o que viabiliza essa transição: prontuário eletrônico, telemedicina, gestão de glosas por dados e BI clínico são os pilares de uma gestão preparada para o futuro da remuneração hospitalar.

O próximo passo é avaliar os contratos vigentes e identificar quais modelos já estão sendo praticados, e onde há espaço para renegociação.

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